O grande mitologema cretense do rei Minos está indissoluvelmente ligado ao palácio de Cnossos e a seu labirinto, bem como ao arquiteto Dédalo ao Minotauro e ao mito de Teseu e Ariadne. Se, do ponto de vista histórico, Minos foi um nome dinasta, que governou Creta, ao menos como rei suserano de Cnossos, mitica¬mente a coisa é bem diversa.
Filho de Zeus e Europa (que Zeus raptara sob a forma de Touro) ou do rei cretense Astérion e da mesma Europa, Minos tinha dois irmãos, Sarpédon e Radamanto, com os quais disputou o poder sobre Creta, eco evidentemente de lutas reais pela supremacia de Cnossos sobre Festo e Mália, dois outros grandes centros políticos e econômicos da ilha. Minos alegou que, de direito, Creta lhe pertencia por vontade dos deuses e, para prová-lo, afirmou que estes lhe concederiam o que bem desejasse. Um dia, quando sacrificava a Posídon, solicitou ao deus que fizesse sair um touro do mar, prometendo que lhe sacrificaria, em seguida, o animal.
O deus atendeu-lhe o pedido, o que valeu ao rei o poder, sem mais contestação por parte de Sarpédon e Radamanto. Minos, no entanto, dada a beleza extraordinária da rês e desejando conservar-lhe a raça, enviou-a para junto de seu rebanho, não cumprindo o prometido a Posídon. O deus, irritado, enfureceu o animal, o mesmo que Héracles matou mais tarde (ou foi Teseu?) a pedido do próprio Minos ou por ordem de Euristeu. A ira divina, todavia, não parou ai, como se vera. Minos se casou com Pasífae, filha do deus Helio, o Sol, da qual teve vários filhos, entre os quais se destacam Glauco, Androgeu, Fedra e Ariadne. Para vingar-se mais ainda do rei perjuro, Posídon fez que a esposa do Minos concebesse uma paixão fatal e irresistível pelo touro. Sem saber como entregar-se ao animal, Pasifae recorreu as artes de Dédalo, que fabricou uma novilha de bronze tão perfeita, que conseguiu enganar o animal.
A rainha colocou-se dentro do simulacro e concebeu do touro um ser monstruoso, metade homem, metade touro, o Minotauro. Esse Dédalo era ateniense, da família real de Cécrops, e foi o mais famoso artista universal, arquiteto, escultor e inventor consumado, é a ele que se atribuíam as mais notáveis obras-de-arte da época arcaica, mesmo aquelas de caráter mítico, como as estátuas animadas de que fala Platão no Ménon. Mestre de seu sobrinho Talos, começou a invejar-lhe o talento e no dia em que este, inspirando-se na queixada de uma serpente, criou a serra Dédalo o lançou do alto da Acrópole. A morte do jovem artista provocou o exílio do tio na ilha de Creta.
Acolhido por Minos, tornou-se o arquiteto oficial do rei e, a pedido deste, construiu o célebre Labirinto, o grandioso palácio de Cnossos, com um emaranhado tal de quartos, salas e corredores, que somente Dédalo seria capaz, Ia entrando, de encon¬trar o caminho de volta. Pois bem, foi nesse labirinto que Minos colocou a horrendo Minotauro, que era, por sinal, alimentado com carne humana. Ora, se o rei já estava profundamente agastado com seu arqui¬teto, por haver construído o simulacro da novilha, estratagema atra¬vés do qual sua mulher fora possuída pelo Touro, ficou colérico ao saber que Dédalo havia também planejado, com Ariadne, a liberta¬ção de Teseu, filho de Egeu, rei de Atenas. E que, com a morte de Androgeu, filho de Minos, morte essa atribuída indiretamente a Egeu, que, invejoso das vitórias do jovem cretense nos jogos por aquele mandados celebrar em Atenas, enviara o atleta para combater a Touro de Maratona, onde perecera, eclodiu uma guerra longa e penosa entre Creta e Atenas.
Como a luta se prolongasse e uma peste (pedido de Minos a Zeus) assolasse a cidade, Minos concordou em retirar-se, desde que, de nove em nove anos, lhe fossem enviados sete rapazes e sete moças, que seriam lançados no Labirinto, para servirem de pasto ao Minotauro. Teseu se prontificou a seguir para Creta com as outras treze vitimas, porque, sendo já a terceira vez, em que se ía pagar o terrível tributo ao rei de Creta, as atenienses começavam a irritar-se contra seu rei. La chegando, foi instruído por Ariadne, que por ele se apaixonara, como se aproximar do monstro e feri-lo. Deu-lhe ainda a jovem princesa, a conselho de Dédalo, um fio condutor, para que, após a vitória, pudesse sair da formidável teia de caminhos tortuosos de que era constituído o Labirinto. Livre deste e do Minotauro, Teseu fugiu com seus companheiros, levando consigo Ariadne
Louco de ódio pelo acontecido, Minos descarregou sua ira sabre Dédalo e o prendeu no Labirinto com o filho Ícaro, que tivera de uma escrava do palácio, chamada Náucrates. Dédalo, todavia, facil¬mente encontrou o caminho da saída e, tendo engenhosamente fabri¬cado para si e para a filho dois pares de asas de penas, presas aos ombros com cera, voou pelo vasto céu, em companhia de Ícaro, a quem recomendara que não voasse muito alto, porque o sol derreteria a cera, nem muito baixo, porque a umidade tornaria as penas assáz pesadas. O menino, no entanto, não resistindo ao impulso de se aproximar do céu, subiu demasiadamente. Ao chegar perto do sol, a cera fundiu-se, destacaram-se as penas e ele caiu no mar Egeu, que, dai por diante, passou a chamar-se Mar de Ícaro. Este episódio tão belo foi narrado vibrante e poeticamente pelo grande vate latino, Públio Ovidio Nasão (43 a.e.c. - 18 d.e.c.) em suas Metamorfoses, 8, 183-235. Dédalo chegou são e salvo a Cumas, cidade grega do sul da ltália. Perseguido por Minos, fugiu para a Sicília, onde o rei Cócalo o acolheu.
O rei de Creta, porém, foi-lhe ao encalço. Pressionado, Cócalo prometeu entregar-lhe o engenhoso arquiteto, mas, secretamente, encarregou suas filhas de matarem o poderoso Minos, durante o banho, com água fervendo, ali, segundo uma variante, Cócalo substituiu a água do banho por pez fervente, talvez por instigação do próprio Dédalo, que havia imaginado um sistema de tubos, em que a água era repentinamente substituída por uma substância incandescente. Foi este, miticamente, o fim trágico do grande rei de Creta.
A interpretação dessa cadeia de mitos, já bastante enriquecidos pelo sincretismo creto-micênico, não parece muito difícil. Minos é “um rei sacerdote”, para usar da expressão de Arthur Evans, ou seja, é a personificação do deus masculino da fecundidade. Identifica-se ainda com o senhor do raio e da chuva, associando-se à Deusa Mãe, que personifica a Terra. A influência egípcia parece clara: encarnação do Touro, Minos lembra o touro Apis, de Mênfis; sua união com Pasifae e o nascimento do Minotauro evocam as tríadas egípcias. Minos não e o representante da divindade na terra, mas seu filho. Filho piedoso e submisso: de nove em nove anos, o rei se recolhia no mais temível e intrincado dos labirintos, no monte Iucta, para uma “entrevista secreta” com seu pai Zeus, a quem prestava contas de “suas atitudes” e de seu governo. Se descontente com o rei, este permanecia no labirinto; se satisfeito, Zeus o reinvestia no poder para mais um período de nove anos. Historicamente, o tributo novênio cobrado a Atenas parece refletir, desde o Minóico Médio, ~ 2100-1580 a.e.c., a penetração e o domínio cretense na costa oriental do Peloponeso e na Arcádia, onde se instala a dinastia de Dânao; na Lacônia, dominada pela de Lélex; na Beócia, conquistada par Cadmo, e na Ática, onde os agentes de Minos cobravam um tributo, em espécie ou em homens.
Do ponto de vista religioso, no entanto, “o sacrifício” de quatorze atenienses ao Minotauro simboli¬zaria “um estado psíquico, a dominação perversa de Minos, mas, se o monstro é filho de Pasifae, a rainha cretense estaria também na raiz da perversidade do rei: ela refletiria um amor culpado, um desejo injusto, uma dominação indevida e a falta, reprimidos no inconsciente do labirinto. Os sacrifícios ao monstro são outras tantas mentiras e subterfúgios para adormecê-lo e outras tantas faltas que se acumulam. O fio de Ariadne, que permite a Teseu voltar à luz, representa o auxílio espiritual necessário para vencer a iniqüidade. No seu conjunto, o mito do Minotauro simboliza a luta espiri¬tual contra a repressão” , uma espécie de luta entre Antígona e Creonte! O retiro de Minos, de nove em nove anos, no labirinto do monte lucta, é uma clara alusão ao processo iniciático, comum a reis e sacerdotes, periodicamente. A união de Teseu com Ariadne é um hieros gámos. Um casamento sagrado, com vistas a fecundidade e a fertilidade da terra. Dédalo e Ícaro representam também algo de sério...
Dédalo é a engenhosidade, o talento, a sutileza. Construiu tanto o labirinto, onde a pessoa se perde, quanto as asas artificiais de Ícaro, que lhe permitiram escapar e voar, mas que lhe causaram a ruína e a morte. Talvez se deva concordar com Paul Diel em que Dédalo, construtor do labirinto, símbolo do inconsciente, representaria, “em estilo moderno o tecnocrata abusivo, o intelecto pervertido, o pensamento efetivamente cego, o qual, ao perder sua lucidez, torna-se imaginação exaltada e prisioneira de sua própria construção, o inconsciente”.
Quanto a Ícaro, ele é o próprio símbolo da hybris, da démesure, do descomedimento. Apesar da admoestação paterna, para que guardasse um meio-termo, “o centro”, entre as ondas do mar e os raios do sol, o menino insensato ultrapassou o métron, foi além de si mesmo e se destruiu. Ícaro é o símbolo da temeridade, da volúpia “das alturas”; em síntese: a personificação da megalomania. Se, na verdade, as asas são o símbolo do deslocamento, da libertação, da desmaterialização, é preciso ter em mente que asas não se colocam apenas, mas se adquirem ao preço de longa e não raro perigosa educação iniciática e catártica. O erro grave de Ícaro foi a ultrapassagem, sem o necessário gnôthi s’autón, o indispensável “conhece-te a ti mesmo”. Para fechar este assunto, uma derradeira palavra sabre a ilha de Minos. A influência cretense sabre a Grécia foi grande e bené¬fica. Aos minóicos devem os gregos aqueus uma parte de suas obras ¬de arte e de suas técnicas, e do ângulo em que a civilização cretense nos interessa no momento, isto é, o religioso, a presença de Creta foi muito importante para o desenvolvimento da religião helênica. Mircea Eliade é taxativo: “Com efeito, a cultura e a religião helê¬nicas são resultado da simbiose entre o substrato mediterrâneo e os conquistadores indo-europeus, descidos do Norte”.
A influência religiosa minóica não se restringe apenas à “importação” pura e simples de deuses, como Core, Velcano, Britomártis, Réia, Ilítia e ao salutar sincretismo que se seguiu, mas também, e isto é importante, os gregos devem a Creta uma parte do mito de Zeus, algumas modalidades de jogos, os ritos agrários e certamente o culto de Deméter. E, se a capela creto-micênica, com sua tríplice divisão interna, teve seu prolongamento no santuário grego, o culto cretense do lar há de ter continuidade nos palácios micênicos. Na que tange especificamente a Deméter, as origens de seu culto são atestados em Creta e o santuário de Elêusis data da época micênica.
O sueco Martin P. Nilsson diz que Certas disposições, arquitetônicas ou de outra espécie, dos templos de mistérios clássicos, parecem derivar, mais ou menos, das instalações constatadas na Creta pré-helênica. É possível que Nilsson não tenha exagerado, ao afirmar que de quatro grandes centros religiosos da Hélade, Delos, Delfos, Eléusis e Ollmpia, os três primeiros foram herdados dos micênicos, que, por sua vez, os receberam dos cretenses. Sem omitir, nem tampouco esquecer o quanto a Hélade deve ao Egito e a Ásia Menor em matéria de religião, cabe, no entanto, a Creta um lugar de destaque nesse quadra de influências. Bastaria, para confirmá-lo, lembrar que a rainha do Hades grego é a cre¬tense Perséfone e que, dos três juízes dos mortos, dois, Radamanto e Minos, tiveram por berço a ilha de Minos...
Talvez da Grécia em relação a Creta se pudesse repetir, mutatis mutandis, o que disse o extraordinário poeta latino Quinto Harácio Flaco (65-8 a.e.c.) de Roma em relação a Grécia: Graecia capta ferum uictorem cepit et artes intulit agresti Latio (Epist., 2, 1, 152): — A Grécia conquistada conquistou seu feroz vencedor e introduziu suas artes no Lácio inculto.